Em um fim de semana inacabável, quando Lícia cruzava por uma perigosa cidade de fronteira,

ela anotou um de seus sonhos, em uma noite de lua cheia.

Era seu método de acalmar-se, serenar seus pensamentos e seguir sua viagem nos próximos dias.

Ela sabia que a mente tudo comandava, seu caminho, seus desejos, sua vontade de vida, sua inspiração, sua coragem, e a batida de seu coração! 

Com a energia vibrando alto e a o peito aberto, ela foi rápida em pensar que deveria fotografar seus escritos, sua máscara inspirada no sonho  e enviar-me para publicar.

Sua viagem seria talvez seu maior desafio, entre tantos que já enfrentou.

Compartilho minha interpretação de suas palavras de autoconhecimento e algumas fotografias de sua face mascarada para muitos inspirar. 

Madame C. Bécamier

 

“Lembro que era como ter andando horas em uma espécie de deserto, de horizonte plano, e infinito.

Era um lugar alto, com pouco verde transbordando em pontos vulcânicos do chão seco, e com pontudas rochas emergindo como calos da terra exausta, sedenta.

Eu seguia naquele vale imenso, sempre sabendo meu caminho.  Cada passo era leve como a sensação de eternidade.

Na aridez do tempo, o chão ia ficando mais coberto de pedras.

O caminho tornava-se mais denso. Tudo pesava cada vez mais.

O calor era insuportável. A secura da poeira vinda do chão fazia-me respirar com esforço.

A todo momento, eu sentia o sufoco apertando a garganta, e eu cuidadosamente concentrava o foco de meu olhar no horizonte, para seguir respirando.

Não suportava pensar que o caminho poderia derrotar minha energia vital, sempre guiada pela racionalidade que sustenta minha coragem.

Então, comecei a ter curtos intervalos de delírio. Meu corpo pesava, minha respiração ofegante ia extinguindo minha energia e eu não sentia mais lucidez no olhar.

Ao mesmo tempo, eu estava segura de uma enorme força alçando minhas certezas.

De repente, avistei um paredão de pedras que cobria uma porção de um horizonte vasto.

O tanto de terra e pedra por onde eu caminhava começou a ficar mais baixo, como se fosse uma porção plana de mundo afundando. Eu senti que ia afundar junto, mas segui olhando fixamente para aquele paredão. O que não entendia era ver aquilo distante, como apartado da porção de mundo por onde eu andava.

Eu andava, andava, andava, e focava no horizonte, mesmo que cada vez meu corpo pesasse mais.

Comecei a sentir algo enorme arrastando-se sobre minhas costas. Mas olhava para trás e não via nada além do deserto e de uma poeira estendendo-se a partir de mim.

Eu percebia demais, e ao mesmo tempo nada conseguia compreender. Comecei a pensar que era delírio e senti um medo enorme de desaparecer, de todos minhas certezas esvairem-se por ali.

De onde vinha aquele deserto, aquelas pedras com textura querendo ferir meus pés, a poeira, a secura do ar, a escaldante quentura sol? E por quê aquele paredão começava a surgir?

Eu só sei que meu corpo estava ali, caminhando com absoluta certeza de onde queria chegar.

De repente, o paredão fez-se enorme diante de mim.

Mais enorme ainda era a fenda que abria o chão diante do meu caminho.

Meus olhos começaram a latejar e o paredão tornou-se uma porção de um outro lado.

Havia uma fenda enorme diante de mim!

Aquilo que eu de longe enxergava, era um abismo de rocha com pontos azulados, cravejada de esmeraldas.

Em alguma parte daquele mundo, aquela porção de chão precioso se havia rompido.

Naquele momento, quando meus olhos latejavam e o abismo abriu-se diante deles, tudo ficou paralisado de uma forma tão extasiante, que deixei de sentir a exaustão e passei a sentir uma leveza intensamente eterna.

Naquele momento de tempo incontável, eu, Lícia, ameaçada de cair em um precipício de superfície  rochosa de esmeralda e cobre, tive a certeza de que o abismo não me assustava.

Era hora de cruzar sua imensidão de brilho e vazio.

Depois de ficar parada, recobrando forças para sair do mundo imaginário que poderia estar cercando o deserto real por onde eu cruzava, senti a poeira voltando a soar nas minhas costas. Agora tinha som, era poeira que me empurrava como um vento sereno, quente e acolhedor.

Lentamente olhei para trás e percebi de onde vinha aquela poeira, que mais parecia um redemoinho de estrelas levantando asas do chão.

Nada mais pesava. Havia confiança em minha mente, e isso era tudo que precisava para seguir.

Senti leveza e adquiri coragem suficiente para deixar o vento me levar ao outro lado.”

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