Meu primeiro sonho era ser fotógrafa de guerra. Correspondente internacional. Por anos, eu me imaginei testemunhando os conflitos de dentro, registrando as dores e o desperdício da condição humana em situações bélicas. 

Na jornada de colocar o sonho em ações, consegui minha primeira câmera fotográfica analógica profissional emprestada. Era uma Minolta, com lente 50mm, de um amigo de família palestina. Muito inventei experimentos visuais, em fotos de rituais afrobrasileiros e de detalhes de culturas indígenas em situações urbanas, sem lugar para sobrevivência. Para escapar das realidades mais desiguais, criei cenas de realismo fantástico com dupla exposição.  Mas o que mais almejava era comprar rolos fotográficos PB Agfa ISO 100 (em Ciudad Del Leste, Paraguay) para exercitar o olhar a instantes impactantes e esteticamente precisos, inspirados em Cartier-Bresson, Capra ou do não tão famoso (naquele então) Sebastião Salgado. Sempre fui encantada com o olhar dos fotógrafos de guerra e de conflitos sociais para os instantes mais urgentes e as ações mais indecifráveis das situações nonsense originadas em conflitos políticos, estendidos a multidões de “seus” territórios. 

Os olhares ao front eram sempre produzidos por homens, assim como até hoje são relatados os indícios científicos mais conhecidos sobre nossos ancestrais.

Fato: da caça à guerra, grande parte das versões da História que se espalham são os homens que protagonizam pois também eles (geralmente, e em maioria) dirigem a política, o discurso, as ferramentas e os conflitos. 

O olhar de Chappelle

Há poucos dias conheci as imagens e a história de Chappelle. ‘Dickey’ Chapelle foi a primeira fotógrafa de guerra reconhecida. 

Chapelle cobriu conflitos desde a II Guerra mundial, passando pela Guerra Fria e a Guerra do Vietnam. Era fotógrafa e repórter respeitada por seus colegas fuzileiros. Era um deles, como alguns diziam… Suas imagens em preto e branco, como as de Cartier-Bresson e de Fritjof Capra, guardam um olhar corajoso e cuidadoso à dor alheia. A composição fotográfica nestes instantes de tensão absoluta é atenta a tudo que deve ser dito pela imagem. 

Chappelle olhava e escrevia o que via. Era fotógrafa e repórter. Ela adiantava seus passos para encontrar o lugar onde captaria o tempo exato da imagem de uma linha de fuzileiros cruzando um rio, lotados de bagagens e com água até o pescoço. Seu trabalho de adiantar-se para observar seus colegas em ação foi publicado em inúmeros jornais e revistas internacionais. “Com brincos de pérola e óculos de olho de gato, nada menos” Chappelle foi atingida por estilhaços de um morteiro, no Vietnã. A fotógrafa patrulhava com os fuzileiros navais americanos quando uma armadilha explodiu. Chappele foi a primeira correspondente de guerra a morrer em combate. 

Foi lendo sobre sua história que voltei a me imaginar como uma mulher que poderia ter exercido esta profissão. Nunca tive amarras ou medos de exercer qualquer trabalho. Mas há muitos anos tive um motivo para entender que este sonho talvez tenha se manifestado para me dizer algo mais…

O fotógrafo e retaguarda 

Desisti da ideia de ser correspondente de guerra, me protegendo atrás da câmera, quando assisti a um dos episódios da série As 100 fotos do Século (Canal GNT), que até hoje tenho gravada em VHS! O episódio versava sobre um jovem fotógrafo que cobria conflitos na África e foi morto a pedradas por uma comunidade que ele retratava. Não encontrei informações sobre o conflito que cobria, e tenho uma vaga memória da época dos fatos (final dos anos 90, talvez?). O vídeo que gravei da televisão está em meu acervo na casa de meus pais, distante do aqui e agora. (Se algum leitor lembrar ou souber, comente. Sou jornalista diplomada (pois é! investigar é o que me move) e aceito relembrar e confirmar os fatos, sempre.) 

O que me abalou nesta história não foi o fato daquele jovem fotógrafo, claramente idealista e corajoso, trabalhar em uma situação de conflito. O que me amedrontou com a lembrança, que até hoje sinto no fundo do peito, foi o fato de que a fome, o medo, e o levante dos que estavam lutando para sobreviver em meio a um conflito de interesses por poder, foi o estopim da revolta. Foram a fome e o medo que levantaram a força incontrolável entre seres humanos para tirar a vida de outro ser humano. Eu ficava imaginando o fotógrafo solitário, encarando a verdade que via a olho nu, sem ter como reagir, sem a proteção da câmera para fugir ou imaginar. 

Para além e de certa forma no âmago de todas as questões geopolíticas do fato, havia ali um cenário humanitário de injustiças tão profundas que seres humanos talvez sem consciência suficiente do outro, mas com muitas razões de ira pelo que viviam, haviam colapsado a ponto de apedrejar um outro ser humano que chegava com as armas desconhecidas de um inimigo que os ameaçava. Diante do desconhecido e do excesso de angústia, eles colapsaram e apedrejaram. 

A imagem e o sentimento que tenho daquela situação é de incapacidade, de todos os lados, em ambas as ações de lançar o olhar e de lançar as pedras. Por um lado, a incapacidade de um olhar de quem queria relatar ao mundo uma injustiça que poucos tinham coragem de encarar. Era como se o desenho das mazelas se voltasse contra o próprio imaginador da ação. Um homem apedrejado! Do outro lado, o ataque parecia a única reação capaz de dizer que a vida ali deveria ser preservada. 

Depois daquele baque, segui fotografando e documentando conflitos da condição humana em relação às disputas de poder de forma mais amena. Conheci muitos heróis de mundos inaceitáveis e de realidades inóspitas. Eu “infiltrava-me” em seus territórios e suas culturas. Depois de muito conviver e de tornar minha equipe tão amigável e cuidadosa quanto cada um daqueles personagens, eu apontava a câmera às suas realidades com mais compreensão da vulnerabilidade, com respeito profundo à condição humana que retratava. Resolvi abordar temas polêmicos com um olhar estético que elevava a percepção de questões socioambientais muito profundas para mim. Por pensar na empatia e no altruísmo humanos, evitei o conflito direto com os mecanismos e pessoas de poder, em documentários sobre guerreiras e guerreiros (personagens reais) que enfrentavam outras intempéries, distantes da guerra mas que em algum momento serviram à guerra e ao poder

Ainda com a câmera em punho, reconheci o lugar de cidadania do vão do MASP e me ofereci para registrar manifestações de liberdade na retaguarda, colada aos policiais que tinha escudos mais potentes que minha câmera artivista-militante. Não ganhei nada com isso. Simplesmente vivi. 

Deixei o lugar de usar câmeras na retaguarda quando juntei as peças e percebi que outros poderiam sentir-se mais valorizados fazendo o que para mim já bastava. Ser mulher naquela situação era mais que arriscar-me, era violentar-me, de certa forma. Não só pela posição na retaguarda, mas também pelo não respeito ao trabalho, ao tanto de investigação e estudo para tornar a relação entre conteúdo e forma visível em imagens. 

As Amazonas 

Deixei de insistir neste e alguns outros lugares de ação em minha carreira por perceber injustiças e os tantos julgamentos às mulheres e ao papel das artistas-criadoras. Fui avançando a outras frentes pois não fico onde não posso gerar e compartilhar conhecimento, e onde não há espaço para escavar a realidade. 

Nesse caminho de avanço, mantive o o foco na criação coletiva, mas comecei a perceber que o mais visceral era o contato com o público. Começo aproximar-me do ao vivo, das artes da presença e olho as redes sociais a partir de uma perspectiva de investigação e compreensão. Crio uma autoficção com uma tríade de mulheres e ao receber o feedback do público nas redes e no ao vivo, reconheço o machismo pulsando e enfraquecendo homens e mulheres. 

Neste processo, reli e descobri muitas mitologias e experienciei muitos ritos. Os mitos mais fascinantes para mim seguem sendo investigados pela ciência, como muitos outros temas que envolvem os lugares de ação das mulheres na história da Humanidade. 

Refiro-me às Amazonas cujas interpretações mitológicas originais vem da Grécia de Atalanta e de Artémis. A caça e a guerra, nestes mitos, são parte da vida de heroínas velozes, com habilidades no uso de arco e flecha, e em montaria. 

E estes mitos eram celebrados no rito Arkteia (“Ela-Urso”), de iniciação de jovens mulheres atenienses, no qual elas fingiam ser ursos selvagens em santuários a Artemis. O culto ainda guarda mistérios mas se sabe que neles haviam competições de corrida evocando a Atalanta. 

O mito de Atalanta sugere que uma garota educada EM SUA NATUREZA poderia crescer como uma Amazonas. Na verdade, se tornar uma Amazonas era um estilo de vida: garotas que creciam aprendendo a caça, praticando montaria e arquearia. 

Haviam, de fato, arqueiras montadas das estepes da Ásia central, no Séc V a. C. Elas era parte dos Citas, antigo povo Iraniano, nômades equestres, e participaram de batalhas em igualdade com os guerreiros. Nas lendas gregas sobre as Amazonas, o tema principal era a busca por equilíbrio e harmonia entre homens e mulheres. 

Esta  espécie de tensão atemporal tem uma presença revelada ou apagada, de acordo com o período histórico e com as disputas de poder. Quem não segue vivendo essa tensão em diversas situações cotidianas?! Agora ainda mais, com o avanço por equanimidade  dificultado por um contra-ataque bélico e culturamente centrado na figura do homem como figura de poder. 

Neste contexto, lembrar da existência histórica das Amazonas ajudou-me a avançar minha compreensão sobre como mulheres também podem assumir suas naturezas selvagens e seus papéis de guerreiras. É com essa força milenar, presente em diferentes culturas, muitas ainda a serem descobertas, que grupos de mulheres tem se unido para recuperar seus lugares e sua autonomia em muitas sociedades, em Estados ditatoriais e extremamente violentos. 

Hora da vanguarda 

Para não esquecer quem eu era, e para lembrar que toda ação tem o valor do tempo e da dedicação, parti para explorar e desbravar as minúcias do lugar que sempre ocupou meu imaginário: a vanguarda. Falo das vanguardas da arte, sempre em sintonia com as ferramentas de nosso imaginário e de nossa ação cotidiana para criar experiências únicas. Confesso que para seguir esse árduo caminho de descobertas é preciso incorporar um tanto da energia da guarda avançada. Penso em lanças, em olhar preciso, em gritos de avanço, em concentração extrema, em enfrentar e dissolver os medos, em desviar a irracionalidade da raiva, e levar um tambor de ética, sabedoria e integridade selvagem no fundo do peito.

A vanguarda que assumo vem, pois, do sonho mais profundo. Descubro este sonhos depois de avançar as trincheiras do conflito e perceber que era mais efetivo batalhar para seguir criando formas mais precisas para os conteúdos mais à frente (e diante) de nosso tempo.   

O sonho mais profundo: a alquimia de um  antídoto  

Pois bem, hoje avancei ao lugar de origem de nossos sonhos. Estou na caverna. Não na de Platão e sim caverna da mãe ancestral. Reviso pesquisas da arqueologia, da paleontologia e da musicologia; da dança, da performance, do audiovisual, e percebo em todas elas um lugar onde começo a reconhecer uma revisão profunda dos lugares de ação da mulher na História. 

Da Eva Mitocondrial à tenda vermelha, é hora de criar a partir das escavações que faço da origem matrilinear de nossos gens. Fomos guerreiras, e seguimos peleando e fertilizando a vida de imaginários onde a equinimidade é tangível.

Agora pratico para aproximar-me do público com o antídoto da presença, através da dança, nossa preciosa e poderosa abstração pela corporalidade. 

E em meu imaginário, espalhado pela matéria orgânica de minha mente feita corpo, hoje preciso citar e homenagear mulheres relevantes e mitológicas que vem junto, ao lado, na mesma vanguarda que nos faz avançar à igualdade: 

Talvez a Eva Mitocondrial seja selvagem e inquieta como Lilith; seja empurrada pela ousadia de Iansã; escute a voz de Elza e Piaf juntas; crie com o olhar de Durga e com os sonhos de Maya; enfrente com a coragem de Marielle; desobstrua obstáculos com a leveza de Tara; burle o palco com os exageros de Shakira ou crie novos cenários com a dança elétrica de Loie Fuller; ou ainda viva a expressão das emoções de Pina e suas bailarinas; talvez na juventude tenha vivido a firmeza de Greta; e agora concretize a clareza humilde de Marina Silva; ou junte a língua de Dercy Gonçalvez às alegorias de Elke Maravilha; tenha a elegância punk de Debbie Harry e a malícia disfarçada da loura Xuxa; tome o banho de espumante de Von Tesse, usando o espelho e o lírio colhido de Oxum… Odoyá!

São tantas que seguem… nomeiem as suas e vejam como elas vos acompanham. 

Ah, mas preciso citar as guerreiras-deusas verdadeiras que me cercam, e que carregam a genética de inúmeras gerações em seus conflitos e em suas danças:

A generosidade e a vaidade impenetrável da mais linda mulher Maria Luiza; a autoestima na redoma mais nobre de Olga; o amor de sempre e a companhia inseparável de Bianca, Cíntia, Su, Marília e Nainha; a risada com covinhas e as lembranças de Bibia; a originalidade literata e a habilidade de desenhar todas nós de Maura; a mais doce coragem de Daiane; a presença certeira, alegre e fashionista de Paula (des ténèbres! rsrs); a firmeza de caráter de Patrícia; a inteligência alegre e altruísta de Andreia; a alegria e coerência ponta firme de Léia; a parceria infalível e amorosa de Gy; sensibilidade desafiadora de Raíra; a voz flaneur de Sou; a dança dramática e mutável de Evelin; a doçura altiva de Laura; a graça e o vocabulário assertivo de Dani; a expressão sublime-racional de Valéria; o olhar sonhador na firme ética de Tati; as dúvidas e a presença amorosa de Rebecca; a fé pé no chão de Magda; a eloquencia em construir de Cris; a fala mansa inquieta de Sandra; a força brilhante e sutil de Fernanda; a persistência firme de Deisy; a diversão diante dos fatos de Gi; a fala na hora certa de Lyara; a profunda criatividade de Kit; o sorriso de Menina de Val; a literatura lúcida de Lícia; a fortaleza de elegância de Gabriela; a tranquilidade certeira de Fran; a inteligência bifurcada de Darli; os passos largos de Pri… 

Elas aqui acompanham as horas de tempos difíceis, mas estão aqui, observando os conflitos e sabendo a hora de dançar suas vidas. 

Com elas, umas que vão e vem, outras sempre perto, e à escuta delas aprendo sempre que A SIMPLES PRESENÇA NO AQUI E AGORA está além de qualquer mensagem, pois permeia tudo que está entre nós.

Cada uma com seu corpo. Com o que a move. Com o que a excita. Com o que a liberta. Com o que a limita.
Cada uma com seu sonho primevo e com seus mais profundos sonhos.
Cada uma sendo cada uma. 

Essência é mais! Avantes! 

 

Fontes citadas 

Sobre as Amazonas

MAYOR, ADRIENNE. The Amazons – lives and legends of warrior women across the ancient world. Princeton University Press Princeton & Oxford, 2014

Sobre a fotógrafa Chappelle

https://followthecolours.com.br/art-attack/a-historia-das-irmas-pioneiras-da-art-nouveau/?utm_campaign=coschedule&utm_source=facebook_page&utm_medium=Follow%20The%20Colours&utm_content=A%20história%20das%20irmãs%20pioneiras%20da%20Art%20Nouveau&fbclid=IwAR0rxsEqlDScTh7xJH5XQasilRbhaW0zTwlB14PMj22lqFgllR6d0x4jYmA 

 

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